A
apreensão pairava no ar. Ontem a noite, durante o toque de recolher, enquanto
jantávamos os sanduíches com cervejas que conseguimos comprar, sentimos o
cheiro de pneus queimando. Em seguida, tiros e minutos depois o cheiro de algo
tóxico: Era gás lacrimogêneo que a polícia jogava contra os manifestantes. A
situação estava complicada no Chile.
Não
seria de bom tom sair antes das 8, uma vez que este era o horário que terminava
o toque de recolher. Estávamos a apenas 50 km da fronteira mas informações
apontavam para possíveis bloqueios na estrada. Decidimos partir e ver como
estava a situação.
Inicialmente
a estrada parecia sem problemas, mas em menos de 15 km começamos a passar por
vilarejos onde se via resíduos de pneus queimados. Mais à frente, o trânsito
parou: o exército estava na rua retirando manifestantes e barricadas. Quando
passamos ainda haviam pneus pegando fogo.
Logo
em seguida começamos a subir a cordilheira. Vendo tráfego descendo concluímos
que a estrada não estava fechada e assim começamos a relaxar e curtir a
paisagem. A paisagem é de tirar o fôlego. Literalmente, pois nas curvas dos
caracoles chegamos a 3200 metros de altitudes. No topo, chegamos na
imigração com a Argentina.
Imigração
pela América do Sul é sempre igual: muita burocracia, muito papelito para nada.
No Chile, por não fazer parte do mercosul, pior ainda. Gastamos praticamente 1
hora para cruzar a fronteira.
Já
no lado argentino começamos a descida dos Andes. Neste trecho Fernanda vai de
moto, na garupa de Nelson. A pista é sensivelmente pior mas com um visual tão
deslumbrante quanto do lado chileno. A grandiosidade e imponência da montanha
impressionam. O visual é tão bonito que não se sente os km passarem.
Uma
rápida abastecida em Uspalata e seguimos rumo a Mendonza. Neste trecho começam
a aparecer as vinícolas. E são inúmeras: com suas magníficas entradas e
parreirais a vista a viagem continua e quando se percebe, já estamos em
Mendonza.
A
entrada no Chile com todos os problemas de câmbio, mal funcionamento dos
cartões de crédito, pedágios, e principalmente a situação política do país, foi
decepcionante. Entretanto a beleza e magnitude do cruzamento dos Andes fez com
que a ida ao Chile tenha valido a pena. Agora é um dia de descanso em Mendonza
e depois rumo a Porto Alegre. Faltam 2000 km agora.
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